Meditação de 6 de fevereiro

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Frutos que produz a meditação de Jesus Crucificado

Frutos que produz a meditação de Jesus Crucificado

Sub umbra illius quem desideraveram sedi; et fructus eius dulcis gutturi meo – “Eu me sentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto é doce ao meu paladar” (Ct 2, 3)

Sumário. Representemo-nos muitas vezes Jesus agonizante sobre a cruz; detenhamo-nos em contemplar algum tempo as suas dores e o afeto com que sofreu, e disso tiraremos copiosos frutos de vida eterna. Da cruz de Jesus parte uma aragem celeste que suavemente nos desliga das coisas terrenas e nos torna leves todos os nossos trabalhos; acenderá em nós um santo ardor para sofrer e morrer por amor daquele que quis padecer e morrer por nosso amor. É sobre o Calvário que se formaram e ainda se formam os santos.

I. Ó almas devotas, procuremos imitar a Esposa dos Cânticos sagrados, que se assentou debaixo da sombra daquele que era o único objeto dos seus desejos. Representemo-nos frequentes vezes, especialmente nas sextas-feiras, Jesus moribundo sobre a cruz; ponhamo-nos a contemplar algum tempo com ternura as suas dores e o afeto que nos teve; e então bem poderemos dizer: E o seu fruto é doce ao meu paladar. É sobre o Calvário e pela contemplação de Jesus crucificado que se formaram em todos os tempos e ainda hoje se formam os santos.

No meio do tumulto deste mundo, das tentações do inferno e dos temores dos juízos divinos, oh! Quão doce repouso acham as almas amantes de Deus, ao contemplarem, a sós e em silêncio, o nosso amantíssimo Redentor, quando está em agonia ou derrama o seu divino sangue gota a gota, por todos os membros feridos e dilacerados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Ah! Quão doces frutos ali colhem e que progressos tão rápidos fazem então no caminho da perfeição! — Sim, porque à vista de Jesus Cristo esvaecem-se do nosso espírito todos os desejos de grandezas mundanas, de riquezas terrestres, de prazeres dos sentidos! Sopra da Cruz uma aura celestial, que nos desprende docemente de todas as coisas da terra e nos faz reputar leves todos os nossos sofrimentos; mais: acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que tanto quis sofrer e morrer por nosso amor. Pelo que dizia São Francisco de Sales: “Fixai Jesus crucificado em vosso coração, e todas as cruzes e espinhos deste mundo se vos afigurarão como rosas.”

Ó meu Jesus, se Jesus Cristo não fosse, como deveras é, o Filho de Deus e Deus verdadeiro, o nosso Criador e soberano Senhor, mas tão somente um homem qualquer, quem não sentiria compaixão à vista de um jovem nobre, inocente e santo que morre sobre um patíbulo infame à força de tormentos, não para expiar os seus delitos próprios, mas para expiar os dos seus inimigos, a fim de os livrar da morte que lhes era devida? Como é, pois, que não há de atrair o afeto de todos os corações um Deus que por amor de suas criaturas morre num mar de desprezos e de dores? Como é que as criaturas hão de amar alguma coisa que não seja Deus, e pensar em outra coisa senão em serem gratas a seu tão amoroso benfeitor?

II. Oh, si scires mysterium Crucis! Quando o tirano quis induzir Santo André a renegar Jesus Cristo, por ser este crucificado como um criminoso, respondeu-lhe o Santo:

“Ó tirano, se soubesses o amor que te mostrou Jesus Cristo, morrendo sobre a cruz para satisfazer por teus pecados e obter-te uma felicidade eterna, de certo não te esforçarias por m´O fazeres renegar; antes tu mesmo havias de abandonar tudo o que possuis e esperas sobre a terra, a fim de agradares e contentares a um Deus que tanto te amou.”

É isso o que tem feito santos e tantos mártires que abandonaram tudo por Jesus Cristo. Oh, que vergonha para nós! Quantas tenras virgenzinhas renunciaram às alianças com os grandes, às riquezas dos palácios, e a todos os gozos terrestres, e de boa mente sacrificaram a vida, a fim de retribuírem de alguma maneira, com o seu afeto, o amor que lhes mostrou o seu Deus crucificado! D´onde vem, pois, que tantos cristãos ficam insensíveis à Paixão de Jesus Cristo? É porque pouco consideram no muito que Jesus Cristo padeceu por nosso amor.

Ah, meu Redentor, eu também fui um desses ingratos! Com a lembrança dos meus pecados, o demônio quisera representar-me a salvação como por demais difícil; mas, meu Jesus, a vista do Crucifixo assegura-me que não me repelireis de diante da vossa face, se eu me arrependo de Vos ter ofendido e Vos quero amar. Sim, arrependo-me e quero amar-Vos de todo o meu coração. Detesto os malditos prazeres que me fizeram perder a vossa graça.

— Amo-Vos, ó Bem infinitamente amável, e sempre Vos quero amar. A lembrança dos meus pecados servir-me-á tão somente para me abrasar mais no vosso amor, visto que viestes atrás de mim, quando eu fugia de Vós. Não, não quero mais separar-me de Vós, nem deixar de Vos amar, ó meu Jesus.

— Ó refúgio dos pecadores, Maria, vós, que tão grande parte tivestes nas dores de vosso Filho, quando ia morrer, rogai a Jesus que me perdoe e me conceda a graça de o amar.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 274-277)

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Coração de Jesus, aflito pelo pecado de escândalo

Coração de Jesus, aflito pelo pecado de escândalo

Videte ne contemnatis unum ex his pusillis – “Vede, que não desprezeis um só destes pequeninos” (Mt 18, 10)

Sumário. O Filho de Deus baixou do céu à terra por amor das almas, levou durante trinta e três anos uma vida de privações, e de trabalhos, e afinal chegou a derramar por elas o seu preciosíssimo sangue. Julgai, por estas razões, quão amargo é o desgosto que os escandalosos causam a Jesus Cristo; por Lhe roubarem e mesmo matarem tantas filhas tão diletas. Para não amargurarmos mais esse Coração amabilíssimo, guardemo-nos de dar mau exemplo ao nosso próximo, ainda que seja em coisas leves. I. Uma das coisas que mais afligiram o Coração de Jesus, durante a sua vida terrestre, e que haviam de afligi-Lo ainda no céu, se ali houvesse tristeza, é o pecado de escândalo. Para compreender isso, devemos considerar quão cara é a Deus cada alma de nossos próximos. Criou-as Ele à sua imagem e semelhança (1), e amando-as desde a eternidade, criou-as para que fossem rainhas no paraíso, onde há de torná-las participantes de sua própria felicidade e dar-se-lhes a si mesmo em galardão: Ego ero merces tua magna nimis (2) — “Eu serei o teu galardão infinitamente grande”.

Depois, o que não tem feito, o que não tem padecido o Verbo incarnado por amor dessas almas, para remi-las da escravidão do demônio, na qual caíram pelo pecado? Chegou a nada menos do que a dar por elas o seu sangue e a sua vida. Se, em vez de uma só morte, seu Pai lhe tivera exigido mil; se, em vez de ficar três horas na cruz, tivera de ficar nela até o dia do juízo; se afinal tivera de sofrer para salvação de cada um, o que padeceu para salvação de todos os homens juntos, Jesus Cristo não teria hesitado em fazer tanto. Tão grande é o amor que lhe fazem perder tantas almas. — Julgai por aí quão amargo desgosto causam ao Coração de Jesus os escandalosos, que Lhe fazem perder tantas almas, roubam-Lhe e assassinam tantas filhas tão diletas. Diz São Bernardo, que a perseguição que o Senhor sofre da parte daqueles pérfidos algozes é mais cruel do que a que sofreu da parte dos que o crucificaram.

Tendo os filhos de Jacob vendido a José, apresentaram ao pai a túnica deste tingida no sangue de um cabrito, dizendo-lhe: Vide utrum tunica filii tui sit (3) — “Vê se é ou não a túnica do teu filho”. Do mesmo modo, nos podemos figurar que, quando uma pessoa peca, induzida ao pecado por um escandaloso, os demônios apresentam a Deus o vestido daquela pessoa tingida do sangue de Jesus Cristo, isto é, a graça perdida por aquela alma escandalizada. Se Deus pudesse chorar, choraria então mais amargamente do que Jacó, dizendo: Fera pessima devoravit eum — “Uma fera péssima a devorou”.

II. A fim de não afligirmos mais o Coração de Jesus, guardemo-nos, especialmente nestes dias, de darmos ao próximo qualquer escândalo ou mau exemplo, não somente em coisas graves, senão também nas leves. Abstenhamo-nos sobretudo e sempre de toda palavra que possa ofender a bela virtude, lembrando-nos que uma palavra indecente, muito embora dita de gracejo, pode ser causa de mil pecados. — Se no passado tivemos a desgraça de dar, de qualquer modo, ao próximo ocasião de pecado, saibamos que o Coração aflito de Jesus exige de nós uma rigorosa satisfação, reparando ao menos pelo bom exemplo o mal que fizemos.

Meu amabilíssimo Jesus, eu também sou um daqueles desgraçados cujo mau exemplo encheu de amargura o vosso divino Coração. Ah Senhor! Como pudestes sofrer tanto por mim, prevendo as injúrias que Vos havia de fazer? Mas já que me suportastes até este momento, e quereis a minha salvação, dai-me uma grande dor de meus pecados, uma dor que iguale à minha ingratidão.

Senhor, odeio e detesto sumamente os desgostos que Vos causei. Se no passado desprezei a vossa graça, agora estimo-a mais do que todos os reinos da terra. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, e de todo o meu coração. Não quero mais viver senão para Vos amar e fazer que os outros também Vos amem. Vós mesmo abrasai-me cada vez mais em vosso amor, lembrando-me sempre, quanto fizestes e padecestes por mim. — A mesma graça, peço a vós, ó Maria! Suplico-vos que ma alcanceis, pela dor que o vosso divino Filho sentiu e que vós mesma sentistes pela previsão dos escândalos do mundo.

Referências: (1) Gn 1, 26 (2) Gn 15, 1 (3) Gn 37, 32 (3) Gn 37, 33

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 257-259)

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Jesus quis sofrer afim de ganhar os nossos corações

Jesus quis sofrer afim de ganhar os nossos corações

Dilexit nos, et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo – “(Jesus) nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu sangue” (Ap 1, 5)

Sumário. Os santos tinham bastante razão de chorar, considerando a ingratidão dos homens para com o amor excessivo que Jesus lhes mostrou. Coisa assombrosa! Ver um Deus sofrer tantas penas, derramar lágrimas numa lapa, viver pobre numa oficina, morrer exangue na cruz, ver, enfim, um Deus aflito e atribulado durante a sua vida toda, para ganhar o amor dos homens, e ver depois os homens ingratos responderem-Lhe com injúrias e ofensas! Meu irmão, se tu também no passado foste um desses ingratos, procura agora reparar o malfeito e amar a Jesus Cristo com mais fervor.

I. Considera como Jesus sofreu desde o primeiro instante de sua vida e sofreu tudo por nosso amor. Durante toda a sua vida não teve em mira outra coisa, depois da glória de Deus, senão a nossa salvação. Jesus, sendo Filho de Deus, não havia mister sofrer para merecer o céu. Toda a pena, pobreza, ignomínia que Jesus padeceu, foi destinada a merecer para nós a salvação eterna. Mais; embora pudesse Jesus salvar-nos sem sofrimento, quis todavia levar uma vida de dores, de pobreza, de desprezos, de privação de qualquer alívio, terminá-la com uma morte mais desolada e amargosa do que jamais algum mártir ou penitente sofreu, com o único intuito de fazer-nos compreender a grandeza do amor que nos tinha e para ganhar o nosso afeto.

Viveu trinta e três anos sempre suspirando que chegasse afinal a hora do sacrifício de sua vida, que desejava oferecer para nos alcançar a graça divina e a glória eterna, e ver-nos sempre consigo no paraíso. Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor usquedum perficiatur? (1) — “Tenho de ser batizado com um batismo, e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra?” Desejava ser batizado com o seu próprio sangue, não para lavar pecados pessoais, porquanto era inocente, senão os dos homens que Ele tanto amava. Ó amor excessivo de um Deus, que todos os homens e todos os anjos nunca chegarão a compreender e a louvar bastantemente.

Lamenta-se São Boaventura por ver tão grande ingratidão dos homens em troca de tamanho amor. Causa pasmo, diz o Santo, o ver um Deus sofrer tantas penas, chorar numa lapa, viver pobre numa oficina, morrer exangue sobre uma cruz, numa palavra, um Deus aflito e atribulado durante a sua vida toda por amor dos homens, e ver depois os homens que não ardem de amor para com esse Deus tão amante; que ainda têm a triste coragem de desprezar o seu amor e a sua graça. Como se compreende que Deus se tenha sujeitado a tanto sofrimento por amor dos homens e que ainda há homens que ofendem e não amam esse Deus!

II. Ó meu amado Redentor, eu também sou um desses ingratos que pagaram o vosso imenso amor, as vossas dores e morte com desgostos e desprezos. Meu querido Jesus, como pudestes amar-me tanto e resolver-Vos a sofrer tantos desprezos e trabalhos por mim, vendo as ingratidões de que eu havia de usar, para convosco? Não quero, porém, desesperar. O mal está feito. Concedei-me agora, Senhor, essa dor que com as vossas lágrimas me tendes merecido; peço-Vos uma dor proporcionada à minha iniquidade. Ó Coração amoroso de meu Salvador, em outros tempos tão aflito e desolado por meu amor e agora todo abrasado em meu amor, ah! transformai o meu coração; dai-me um coração que saiba compensar os desgostos que Vos tenho causado e um amor proporcionado à minha ingratidão.

Já sinto em mim um grande desejo de Vos amar. Dou-Vos graças por isso, pois vejo que a vossa misericórdia já me transformou o coração. Detesto, mais que todos os outros males, as injúrias que Vos tenho feito, aborreço-as e abomino-as. Estimo mais a vossa amizade do que todas as riquezas e todos os reinos. Desejo agradar-Vos o mais possível. Amo-Vos, ó Deus infinitamente amável! † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas (1). Mas vejo que meu amor é por demais limitado. Aumentai-lhe o ardor, dai-me mais amor. O vosso amor deve ser pago com amor muito mais intenso da minha parte, porque Vos ofendi tão gravemente, e em vez de castigo, recebi de Vós tantos favores especiais. Ó Bem supremo, não permitais que ainda Vos seja ingrato depois de tantas graças que me haveis concedido. Moriar amore amoris tui (Vos direi com São Francisco), qui amore amoris mei dignatus es mori

— Ó Jesus, morra eu pelo amor de vosso amor, visto que Vos dignastes morrer pelo amor de meu amor. — Maria, esperança minha, valei-me, rogai a Jesus por mim.

Referências:

(1) Lc 12, 50 (2) Indulg. de 50 dias cada vez

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 203-205)

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