Festa do Arcanjo São Miguel
Michael, unus de principibus primis, venit in adiutorium meum — “Miguel, um dos primeiros príncipes, veio em meu socorro” (Dn 10, 13)
Sumário. Entre os anjos do paraíso não há um só que seja superior, nem quiçá igual a São Miguel, que foi escolhido por Deus para rebater o orgulho de Lúcifer e para o expulsar do céu. É, pois, com razão que ele foi colocado como protetor da Igreja católica e de todos os fiéis. Alegremo-nos com o gloriosíssimo Arcanjo, recomendemo-nos a ele e dediquemos-lhe particular devoção, porque tem o honroso ofício de, na hora da morte, defender as almas contra os assaltos dos demônios e apresentá-las ao tribunal divino.
I. Entre os anjos do céu não há nenhum que seja superior nem talvez, no dizer de São Boaventura, igual a São Miguel. E com razão, pois São Miguel foi escolhido por Deus para rebater o orgulho de Lúcifer e de todos os anjos rebeldes e para os expulsar do céu. Minha alma, se amas este santo arcanjo, que tanto amor tem aos homens, congratula-te com ele pela grandeza de que goza no paraíso, e roga-lhe que, assim como é o protetor da Igreja universal e de todos os fiéis, seja também o teu protetor especial junto de Deus, que muito o ama e se compraz em ver glorificado por todos este anjo tão fiel e tão zeloso da glória divina.
Na missa pelos defuntos a Igreja roga assim: São Miguel, o porta-bandeira, leve as almas à santa luz: Signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam. Os escritores explicam esta oração dizendo que São Miguel tem o ofício honroso de apresentar ao Juiz Jesus Cristo todas as almas que deixam este mundo em estado de graça. Glorioso Arcanjo São Miguel, pela vossa proteção fazei que, no dia da minha morte, a minha alma esteja ornada da graça de Deus e seja digna de ser apresentada pelas vossas mãos a Jesus Cristo meu Juiz.
II. Em nome de todos os fiéis, a santa Igreja roga a São Miguel que na hora da morte nos defenda contra os assaltos dos demônios, a fim de que não sejamos por eles vencidos e não nos percamos:
“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, para que não pereçamos no tremendo juízo” — Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio, ut non pereamus in tremendo iudicio
Mas, a fim de que sejamos mais seguramente defendidos nesse momento terrível que decidirá da nossa eterna salvação, mister é que em vida dediquemos devoção especial a este príncipe celeste, agradecendo muitas vezes à Santíssima Trindade as graças e prerrogativas a ele concedidas, recomendando-nos sempre à sua proteção e imitando sobretudo as suas virtudes, em particular a sua humildade e o seu zelo pela glória divina.
Ah! Santo Arcanjo, o inferno tem muitas armas com que pode investir contra mim na hora da minha morte: estas armas são os meus pecados, com cuja representação procurará precipitar-me no desespero. Já agora está preparando tentações horríveis para me fazer então cair no pecado. Ó vós, que vencestes e expulsastes do céu este terrível adversário, vencei-o de novo por mim, e na hora da minha morte expeli-o para bem longe; isto vos suplico pelo grande amor que Deus vos tem e vós a ele. Ó Maria, Rainha do céu, ordenai a São Miguel que me assista à hora da minha morte.
“É Vós, ó meu Deus, que regulais com ordem admirável os ministérios dos anjos e dos homens, dignai-Vos permitir que aqueles que Vos oferecem continuamente os seus serviços no céu, protejam a nossa vida sobre a terra. Por Jesus Cristo Nosso Senhor, que convosco vive e reina por todos os séculos dos séculos” (1).
Referência: (1) Or. festi.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 368-370)
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Da vida retirada
Venite seorsum in desertum locum, et requiescite pusillum – “Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco” (Mc 6, 31)
Sumário. Todas as almas que amam o Senhor acham o seu paraíso na vida retirada. Ademais, sabemos que Jesus Cristo quis que, depois dos trabalhos do apostolado, seus discípulos se retirassem para um lugar solitário afim de conversarem só com Deus. Devemos portanto concluir que o retiro para a solidão, feito de tempos a tempos, é necessário a todos, mas em particular aos operários sagrados, afim de conservarem o recolhimento e refazerem as forças para novos trabalhos na conquista das almas. Sem esse retiro, serão poucos os frutos de seus trabalhos apostólicos.
I. As almas que amam a Deus acham o seu paraíso na vida retirada longe do trato com os homens. A sua conversação (isto é, a conversação com Deus), longe das criaturas, nada tem de desagradável, mas alegria e gozo (1). — Os mundanos têm motivos para fugirem da solidão, porque na solidão, onde não os absorvem os divertimentos ou ocupações terrenas, mais vivamente se fazem sentir em seus corações os remorsos da consciência. Eis porque procuram alívio ou pelo menos distração na conversação com os homens; mas quanto mais procuram alívio entre os homens ou nos negócios mundanos, tanto mais acham espinhos e amarguras.
O mesmo não sucede às almas amantes de Deus, porque na solidão acham um doce companheiro, que as consola e regozija mais do que a companhia de todos os parentes ou amigos e mesmo dos primeiros personagens do mundo. Diz São Bernardo:
Nunquam minus solus, quam cum solus — “Nunca me vejo menos só do que quando estou só e longe dos homens; porque então acho Deus que fala comigo e eu por minha vez estou mais atento em ouvi-Lo e mais disposto a unir-me a Ele.”
Quis o Senhor que os seus discípulos, muito embora destinados a pregarem a fé percorrendo o mundo inteiro, interrompessem de tempos a tempos os seus trabalhos e se retirassem à solidão, afim de tratarem somente com Deus. Sabemos que Jesus Cristo, já no tempo que passava sobre a terra, costumava enviá-los a diversas partes da Judéia, para converterem os pecadores; mas, findos os trabalhos, não deixava de convidá-los ao retiro a algum lugar solitário, dizendo-lhes:
“Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco.”
Ora, se o Senhor manda isto mesmo aos apóstolos, devemos nós concluir que para todos, mas particularmente para os operários evangélicos, é necessário que de tempos a tempos se retirem para um lugar solitário, afim de conservarem o espírito recolhido em Deus e restabelecerem suas forças para os trabalhos da conquista das almas.
II. Quem trabalha em prol do próximo, mas com pouco zelo ou pouco amor de Deus, com algum intuito de amor próprio, de ganhar louvores e dinheiro, pouco fruto produz nas almas. Por isso o Senhor diz a seus operários: Requiescite pusillum — “Descansai um pouco”. Falando assim, Jesus Cristo não pretendia de certo que os apóstolos se deitassem a dormir; senão que descansassem na conversação com Deus, pedindo-Lhe graças para viverem bem e desta maneira obtivessem forças para tratar da salvação das almas. Sem esse repouso em Deus pela oração, falta a força para cuidar bem do proveito próprio e do dos outros.
Falando da vida retirada, São Laurenço Justiniani observa com razão que ela sempre deve ser amada, mas não sempre guardada: Semper est amanda, non semper tenenda. Quer dizer que os que são chamados por Deus à conversão dos pecadores, não devem ficar sempre na solidão, encerrados na sua cela, porque assim faltariam à vocação divina (por obediência à qual é preciso sair do retiro); mas nunca devem deixar de amar a solidão e de suspirar por ela, porque é ali que acham Deus com facilidade.
Ah, meu Jesus! Pouco amei a vida retirada, porque pouco Vos amei. Andei buscando prazeres e alívios no meio das criaturas que me fizeram perder a Vós, o Bem infinito. Ai de mim! Que vivi tantos anos com o coração dissipado, pensando só nos bens da terra e esquecendo-me de Vós. Suplico-Vos: apossai-Vos de meu coração, já que o remistes com o vosso sangue, abrasai-o em vosso amor e possui-o inteiramente. — Ó Maria, Rainha do céu, vós me podeis alcançar esta graça, e de vós a espero.
Referências:
(1) Sb 8, 16
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 139-141)
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