Meditação de 16 de fevereiro

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Da perfeita resignação com a vontade divina

Da perfeita resignação com a vontade divina

Meus cibus est ut faciam voluntatem eius qui misit me, ut perficiam opus eius – “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, para consumar a sua obra” (Mt 13, 31)

Sumário. É um ponto de fé que Deus não quer senão o que é melhor para nós; isto é, a nossa santificação. Se quisermos, pois, ser santos e achar mesmo na terra a paz verdadeira, procuremos ter a nossa vontade em repouso, unindo-a sempre à vontade amabilíssima de Deus. Remetamos ao Pai celestial toda a nossa solicitude, certos de que, afinal, tudo cede para o maior bem do justo. Em cada adversidade, seja qual for, repitamos a palavra habitual dos santos: Seja feita a vossa vontade! I. O que nos sustenta na nossa vida mortal é o alimento; eis porque Jesus Cristo disse que o seu alimento era o cumprir a vontade de seu Pai. Deve isso ser também o sustento das nossas almas; porque nossa vida consiste em cumprirmos a vontade divina; quem não a cumpre está morto (1). — O Sábio escreve: Fideles in dilectione acquiescent illi (2) — “Os que lhe são fiéis no amor, concordam com Ele”. Aqueles que são pouco fiéis no amor divino, quereriam que Deus acquiesceret eis, concordasse com eles; isto é, se conformasse com a vontade deles e lh´a fizesse em tudo. Aqueles, porém, que amam a Deus, acquiescunt illi, concordam com Ele, conformam-se com tudo o que Deus faz tanto deles mesmos como dos seus bens. Em todas as adversidades que os afligem, nas enfermidades, nas injúrias, nos desgostos, na perda de bens ou de parentes, eles têm sempre na boca e no coração a palavra tão familiar aos santos: Fiat voluntas tua — “Seja feita a vossa vontade”.

Deus não quer senão o que é melhor para nós, isto é, a nossa santificação: Haec est voluntas Dei: sanctificatio vestra (3) — “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação”. Procuremos, pois, conservar a nossa vontade em repouso, unindo-a sempre à vontade de Deus, tranquilizemos igualmente o nosso espírito pelo pensamento que tudo o que Deus faz é melhor para nós. Quem não fizer assim, nunca achará a verdadeira paz.

Toda a perfeição alcançável nesta terra, lugar de purificação e, por consequência, de penas e trabalhos, consiste em sofrer com paciência tudo o que contraria o nosso amor próprio, e para sofrê-lo com paciência, não há meio mais eficaz do que sofrê-lo para cumprir a vontade de Deus. — Aquele que se conforma em tudo à vontade de Deus está sempre em paz, e não o entristecerá coisa alguma que lhe suceda: Non contristabit iustum quidquid ei acciderit (4). E porque é que o justo não se entristece, aconteça-lhe seja o que for? Porque sabe que tudo o que acontece neste mundo acontece pela vontade divina e que afinal todas as coisas contribuem para o seu bem (5). Numa palavra, a vontade divina embota, por assim dizer, todos os espinhos, e tira a amargura de todas as tribulações que nos sobrevierem neste mundo.

II. Eis aí o belo conselho de São Pedro, para acharmos a paz perfeita no meio de todos os trabalhos deste mundo: Remetei para Deus todas as vossas inquietações, porque Ele tem cuidado de vós (6). Com efeito, se há um Deus que pensa continuamente em nosso bem, porque nos cansaremos com tantas preocupações, como se o nosso bem dependesse somente dos nossos cuidados? Entreguemo-nos nas mãos de Deus, de quem tudo depende: Lança sobre o Senhor, exorta-nos o profeta Davi, o teu cuidado, e Ele te sustentará; não deixará que flutue o justo para sempre (7).

Numa palavra, sejamos solícitos para obedecermos a Deus em tudo o que Ele nos manda ou aconselha, e depois entreguemos-Lhe o cuidado da nossa salvação. Ele se lembrará de nos dispensar todos os meios que nos sejam necessários; porquanto o que põe em Deus toda a sua esperança, está certo da proteção divina. “Eu te livrarei”, assim fala o Senhor pela boca de Jeremias, “e não serás entregue nas mãos dos homens que temes; salvarás a tua alma, porque tiveste confiança em mim: Erit tibi anima tua in salutem, quia in me habuisti fiduciam.” (8)

Ó Deus da minha alma, aceitai o sacrifício de toda a minha vontade e de toda minha liberdade. Reconheço que merecia que me virásseis as costas e rejeitásseis esta minha oferta, porque tantas vezes Vos tenho sido infiel; ouço, porém, que ainda mandais que Vos ame de todo o meu coração; por isso estou certo que o aceitais. Entrego tudo à vossa vontade. Fazei-me saber o que de mim desejais, que estou disposto a cumpri-lo. Fazei que Vos ame, e depois disponde de mim e de tudo o que é meu, segundo a vossa vontade. Eis que estou nas vossas mãos; fazei o que julgardes mais útil à minha eterna salvação; porque protesto que só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe de Deus, Maria, obtende-me a santa perseverança.

Referências:

(1) Sl 29, 6 (2) Sb 3, 9 (3) 1 Ts 4, 3 (4) Pv 12, 21 (5) Rm 8, 28 (6) 1 Pd 5, 7 (7) Sl 54, 23 (8) Jr 39, 18

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 300-303)

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Da confiança em Jesus Cristo

Da confiança em Jesus Cristo

Nolite itaque amittere confidentiam vestram, quae magnam habet remunerationem – “Não queirais perder a vossa confiança, que tem grande remuneração” (Hb 10, 35)

Sumário. A misericórdia de Deus é como que uma fonte inexaurível, donde tirará mais graças quem trouxer um vaso mais amplo de confiança. Se, pois, quisermos enriquecer espiritualmente, confiemos muito nos méritos de Jesus Cristo e na intercessão de Maria. Avivemos frequentemente esta nossa confiança, lembrando-nos de que Deus é bom e nos quer ajudar; que é poderoso e nos pode ajudar; que é fiel e prometeu ajudar-nos. Não busquemos, porém, uma confiança sensível, que redunda nos sentidos; basta que tenhamos a vontade de confiar.

I. É nimiamente grande a misericórdia de Jesus Cristo para conosco; mas para nosso maior bem, Ele quer que obtenhamos a misericórdia por uma viva confiança baseada em seus merecimentos e em suas promessas. Por isso São Paulo nos exorta a que guardemos a confiança, dizendo que ela nos alcança de Deus uma grande recompensa: magnam habet remunerationem. ― Revelou o Senhor a Santa Gertrudes que a nossa confiança Lhe faz uma violência tão grande, que não pode deixar de atender-nos em tudo que Lhe pedirmos. No mesmo sentido escreve São Bernardo, que a divina misericórdia é como que uma fonte inexaurível, da qual tirará maior abundância de graças quem trouxer um vaso mais amplo de confiança, segundo o que disse o Salmista: Fiat misericordia tua, Domine, super nos, quemadmodum speravimos in te (1) ― “Venha, Senhor, sobre nós a vossa misericórdia, à proporção que em Vós temos esperado”.

Deus mesmo declarou que protege e salva todos os que nele confiam (2). Alegremo-nos, pois, dizia Davi, todos aqueles que esperam em Vós, meu Deus, porque serão eternamente bem-aventurados e Vós habitareis neles (3). E em outro lugar acrescenta que a misericórdia cerca e guarda àquele que confia no Senhor, e que estará ao abrigo dos perigos de perder-se (4).

Oh! quão grandes são as promessas que nas Sagradas Escrituras são feitas aos que esperam em Deus! Vemo-nos porventura perdidos por causa dos pecados cometidos? Eis que temos o remédio à mão: Vamos com confiança aos pés de Jesus, diz o Apóstolo, e ali acharemos o perdão: Adeamus cum fiducia ad thronum gratiae ― “Vamos com confiança ao trono da graça” (5). Não demoremos em nos aproximarmos de Jesus Cristo, até que esteja assentado como Juiz num trono de justiça; vamos agora, visto estar ainda num trono de graça e lembremo-nos sempre do que diz São João Crisóstomo: “O nosso Salvador tem mais desejo de nos perdoar do que nós desejamos ser perdoados”.

II. Quem por causa de sua fraqueza teme a recaída nos pecados antigos, confie em Deus, e não recairá mais, conforme nos assegura o profeta: Non delinquent omnes qui sperant in eo (6) ― “Todos os que esperam nele, não pecarão”. Escreve Isaías que os que esperam no Senhor, terão sempre novas forças (7). ― Não vacilemos, pois, nunca em nossa confiança, como diz São Paulo, porque Deus prometeu proteger a quem nele espera. Por isso, quando se nos antolham dificuldades que parecem insuperáveis, digamos: Eu posso tudo n’Ele (Deus) que me fortalece (8). E quem é que tendo confiado no Senhor se perdeu? Nullus speravit in Domino et confusus est (9) ― “Nenhum esperou no Senhor e foi confundido”.

Não queiramos, porém, sempre ter uma consolação perceptível que redunde nos sentidos; basta que tenhamos a vontade de confiar. É esta a confiança verdadeira, o querer confiar em Deus, porque é bom e nos quer ajudar, poderoso e nos pode ajudar, fiel e prometeu ajudar-nos. Apoiemo-nos sobretudo na promessa que Jesus Cristo nos fez: Em verdade, em verdade vos digo: tudo que pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vo-lo dará (10). Peçamos portanto a Deus as graças pelos merecimentos de Jesus Cristo, confiemos também na intercessão de Maria Santíssima e obteremos tudo o que quisermos.

Ó Pai Eterno, reconheço que sou pobre em tudo; nada posso e nada tenho que não me tenha vindo de vossas mãos. Não vos digo portanto nada senão: Senhor, tende piedade de mim! O pior é que à minha pobreza ajuntei o desmerecimento de responder às vossas graças pelas ofensas que Vos fiz. Não obstante isso, quero esperar de vossa bondade esta dupla misericórdia: a primeira, que me perdoeis os meus pecados; a segunda, que me deis a santa perseverança em vosso amor, com a graça de sempre, até à minha morte, pedir-Vos que me ajudeis. Tudo isto peço e espero pelos merecimentos de Jesus, vosso Filho, e pelos da Bem-Aventurada Virgem Maria. Ó minha grande Advogada, valei-me com os vossos rogos.

Referências:

(1) Sl 32, 32 (2) Sl 17, 31 (3) Sl 5, 12 (4) Sl 31, 10 (5) Hb 4, 16 (6) Sl 33, 23 (7) Is 40, 31 (8) Fl 4, 13 (9) Eclo 2, 11 (10) Jo 16, 23

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 279-282)

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Necessidade da oração mental

Necessidade da oração mental

Desolatione desolata est omnis terra; quia nullus est qui rerogitet corde – “Toda a terra está inteiramente desolada, porque não há nenhum que considere no seu coração” (Jer 12, 11)

Sumário. Afeiçoemo-nos à oração mental e nunca a deixemos de fazer. É ela necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade e também para que conheçamos os nossos defeitos e os emendemos. Assim como sem a oração mental, não faremos bem a vocal, à qual estão ligadas as graças, assim igualmente nos faltará a força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Infeliz, portanto, da alma que não faz oração mental; ela não precisa de demônios para lançá-la no inferno, visto que de si mesma nele se precipita. I. A oração mental é, em primeiro lugar, necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade. As verdades eternas são coisas espirituais, que não são vistas pelos olhos do corpo, senão somente pela consideração do espírito. Quem não faz oração, não as vê, e assim andará com dificuldade no caminho da salvação. — Além disso, quem não faz oração, não conhece os seus defeitos, e assim, como diz São Bernardo, não os aborrece. Tampouco vê os perigos em que se acha a sua salvação e não pensa em evitá-los. Mas quem faz oração logo descobre os seus defeitos e os perigos de perder-se; e vendo-os, pensará em aplicar-lhes o remédio. Por isso o mesmo São Bernardo afirma que “a meditação regula os afetos, endireita as ações e corrige os defeitos”.

Em segundo lugar, sem a oração não haverá força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Dizia Santa Teresa que quem omite a oração, não precisa de demônios para levá-lo ao inferno, visto que de si mesmo nele se precipita.

— A razão disso é que sem a oração mental não haverá oração vocal. Deus quer dispensar-nos as suas graças; porém, diz São Gregório que para no-las dispensar quer ser rogado e como que coagido pelas nossas petições: Vult Deus rogari, vult cogi, vult quadam importunitate vinci. Sem a oração faltará a força para resistir aos inimigos e tampouco se obterá a perseverança no bem. Escreve monsenhor Palafox:

“Como é que o Senhor nos dará a perseverança, se nós não lha pedirmos? E como lha pediremos sem a oração mental?”

Ao contrário, quem faz oração, é como que uma árvore que está plantada junto às correntes das águas, que sempre cresce e está sempre virosa. Erit tamquam lignum secus decursus aquarum (1).

II. A oração mental é a feliz fornalha na qual as almas se abrasam no amor divino; é qual laço de ouro que prende a alma a Deus. Dizia a sagrada Esposa:

Introduxit me rex in cellam vinariam (2) — “O rei me introduziu na sua adega”

Esta adega é a oração, na qual a alma se embriaga de tal modo pelo amor divino, que perde quase inteiramente o gosto das coisas da terra. Não vê mais senão o que agrada a seu amado, não fala senão no amado, nem quer ouvir falar senão nele e toda outra conversação a aborrece e aflige.

Na oração, a alma recolhe-se para tratar a sós com Deus e assim se eleva acima de si mesma. Sedebit solitarius et tacetib, quia levavit super se (3). Diz o profeta Sedebit: assentar-se-á, isto é: a alma em seu repouso, contemplando na oração quanto Deus é amável e quão grande é o amor que lhe tem, começará a saborear as coisas de Deus; o espírito se lhe encherá de santos pensamentos; ela se desprenderá dos afetos terrestres, conceberá grande desejo de se fazer santa e finalmente resolverá dar-se toda a Deus. Onde é que os santos formaram as resoluções generosas, que os sublimaram a um alto grau de perfeição, a não ser na meditação? Por isso São Luiz de Gonzaga dizia que nunca chegará a alto grau de perfeição quem não chega a fazer muita oração mental.

— Afeiçoemo-nos, pois, à meditação e não a omitamos, seja qual for o aborrecimento que nela achemos. Deus remunerará abundantemente o aborrecimento sofrido pelo seu amor.

Ó meu Deus, perdoai-me a minha preguiça. Que tesouros de graças perdi por ter deixado tantas vezes a oração! Para o futuro dai-me força a fim de que seja fiel a conversar sempre convosco nesta terra, visto que espero conversar eternamente convosco no céu. Não aspiro aos regalos das vossas consolações; não as mereço. Basta-me que me permitais ficar a vossos pés para Vos recomendar a minha pobre alma, que tão pobre se acha por se ter afastado de Vós. Ó meu Jesus crucificado, na oração só a lembrança de vossa Paixão me desprenderá da terra e me unirá convosco.

— Santíssima Virgem Maria, assisti-me na minha meditação.

Referências: (1) Sl 1, 3 (2) Ct 2, 4 (3) Lm 3, 28

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 229-232)

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