
Festa de São João ante a Porta Latina
Calicem quidem meum bibetis — “Haveis de beber o meu cálice” (Mt 20, 23)
Sumário. Não bastou ao discípulo predileto o ter sofrido no Gólgota um martírio interior. Para plena realização da profecia de Jesus Cristo, que havia de beber o cálice da sua Paixão, foi necessário que padecesse também um martírio exterior, tal como de fato o sofreu quando foi lançado em uma caldeira cheia de azeite a ferver. Deus, porém, preservou-o milagrosamente, e deu a São João a glória do martírio, sem que se lhe abreviasse a vida. Regozijemo-nos com o santo e peçamos que nos alcance a graça de imitarmos as suas virtudes, especialmente o seu amor para com Deus e para com o próximo.
I. São João protestou a Jesus Cristo que poderia beber o cálice de sua Paixão e foi-lhe respondido que a seu tempo o havia de beber: Calicem quidem meum bibetis (1)— “Haveis de beber o meu cálice”. Esta predição do Senhor não tardou a ser realizada; porquanto o santo apóstolo, avantajando-se aos outros, acompanhou o seu amado Mestre até o Calvário, onde partilhou de todos os insultos, injúrias e padecimentos de Jesus.
Não se contentou, porém, o discípulo predileto de sofrer aquele martírio no coração. Para que se realizasse ao pé da letra, necessário era que padecesse também um martírio exterior. Com efeito, começou a sofrê-lo, quando, como refere São Lucas, foi, juntamente com os outros apóstolos, açoitado em Jerusalém, por ordem do príncipe dos sacerdotes. Ele saiu da presença do Conselho verdadeiramente contente de ter sido achado digno de sofrer afrontas pelo nome de Jesus (2).
Na perseguição ordenada depois pelo imperador Domiciano, São João foi preso na cidade de Éfeso, onde se achava, foi levado a Roma entre sofrimentos indizíveis. Ali foi primeiro encarcerado e barbaramente flagelado; em seguida foi condenado a ser lançado numa caldeira cheia de azeite a ferver, e afinal obrigaram-no a tomar uma taça de veneno mortífero. Procuremos entrar nos sentimentos do coração do santo e reflitamos na alegria que devia experimentar ao ouvir a sentença de condenação e ao ver-se tão perto de dar a vida por Jesus Cristo. Ó! Como ele praticou perfeitamente o que tinha ensinado dizendo: Non diligamus verbo, neque lingua, sed opere et veritate (3) — “Não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Nós, ao contrário, temos o amor de Deus sobre a língua, mas no coração o amor desordenado às criaturas e a nós mesmos. Excite-nos, ao menos, o exemplo de São João a que nos emendemos.
II. Jesus Cristo, que sempre tinha distinguido o seu discípulo amado com favores especiais, quis também dar-lhe nova prerrogativa no seu martírio. Deu-lhe a glória do martírio, ao mesmo tempo que tirava aos homens o poder de abreviar uma vida tão preciosa e tão necessária à Igreja nascente. Por isso, lançado que foi São João na caldeira, o fogo perdeu sua força sobre ele; queimou, porém, os ministros que o atiçavam.
Assim também, quando o santo fez o sinal da cruz sobre a taça que continha o veneno, este se tornou inofensivo, segundo a promessa do Senhor: Si mortiferum quid biberint, non eis nocebit (4) — “Se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal”. Pelo que o imperador envergonhado e estupefato, o desterrou para a ilha de Patmos, onde Deus lhe revelou todas as vicissitudes futuras da Igreja, referidas no Apocalipse.
De volta a Éfeso, São João escreveu o seu Evangelho, e dirigiu os povos por ele convertidos, edificando-os com os exemplos de todas as virtudes e em particular da caridade cristã. Narra São Jerônimo que estando o Apóstolo já acabado pelos trabalhos e pela idade, e não podendo fazer mais pregações prolongadas, não deixava de dizer a seus discípulos: Meus filhos, amai-vos uns aos outros; amai-vos uns aos outros. Perguntado porquê sempre repetia a mesma coisa, deu esta resposta, digna do Apóstolo do amor: “Este é o preceito do Senhor, e quem o observa, faz quanto basta”.
Ó santo Apóstolo e meu poderoso Protetor, regozijo-me convosco pelo belo título de Mártir, que vos compete como aos outros apóstolos. Dou graças ao Senhor, e peço-vos que me alcanceis a graça de sempre vos imitar, especialmente em vosso amor a Deus e ao próximo. “Ó Pai Eterno, Vós que vedes que os nossos males nos apertam por toda a parte; fazei com que sejamos protegidos pela gloriosa intercessão de vosso bem-aventurado apóstolo e evangelista São João” (5). Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima.
Referências: (1) Mt 20, 23. (2) At 5, 40. (3) 1 Jo 3, 18. (4) Mc 16, 18. (5) Or. festi.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 330-333)
Voltar ao calendário de meditações diárias
Produtos recomendados:
-
Blusa manga curta mostarda Blusa manga curta, na cor mostarda em malha canelada, decote redondo, manga princesa, blusa leve, com bom acabamento. Disponível nos… Blusa manga curta, na cor mostarda em malha canelada, decote redondo,… R$ 49,00
-
Saia midi godê total bege… Saia modesta midi godê total em tecido suplex, cor bege com estampa floral. Possui elasticidade e está disponível nos tamanhos P, M ou… Saia modesta midi godê total em tecido suplex, cor bege com estampa… R$ 89,00
-
Vestido longo serena Vestido modesto longo franzido, com uma camada. Em tecido leve, preto com flores miúdas. Possui zíper nas costas. Está disponível nos… Vestido modesto longo franzido, com uma camada. Em tecido leve, preto… R$ 169,00
Compartilhe esta meditação:

Remorso do condenado: podia salvar-me tão facilmente
Transiit messis, finita est aestas, et nos salvati non sumus – “O tempo da ceifa é passado, o estio findou-se, e nós não fomos salvos” (Jr 8, 20)
Sumário. O que mais que o fogo cruciará o réprobo no inferno é ter que dizer consigo: Se eu tivesse feito para Deus tanto quanto fiz para condenar-me, seria um grande santo; agora, ao contrário, hei de ser infeliz para sempre! – Meu irmão, quem sabe se este cruel remorso não virá a ser o teu lá no abismo infernal, se não mudares de vida? Apressa-te, pois, sem perda de tempo: remedeia o mal feito e resolve-te a empregar todos os meios para assegurar-te a salvação eterna.
I. Apareceu certo dia um condenado a Santo Umberto e disse-lhe que o que mais atormentava no inferno era a lembrança do pouco pelo que se tinha condenado e do pouco que tivera de fazer para se salvar. O mesmo nos afirma o Angélico Santo Tomás: “A principal pena dos condenados”, diz ele, “será o verem que se perderam por um nada, e que podiam, com suma facilidade, adquirir a glória do paraíso, se o houvessem querido.” – É pois verdade, dirá então o desgraçado réprobo, se eu me tivesse mortificado para não ver aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano, se tivesse evitado tal ocasião, tal companheiro, tal conversação, não me teria condenado. Se me tivesse confessado cada semana, se tivesse perseverado na congregação, se todos os dias tivesse feito leitura espiritual, se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído. Tantas vezes tomei a resolução de assim fazer, mas nunca a executei; ou comecei a fazê-lo e depois me descuidei e assim me condenei.
Este remorso será aumentado com a lembrança dos bons exemplos que lhe davam os bons amigos e companheiros; e mais ainda com a vista dos favores que Deus lhe concedeu para a salvação: dons naturais, como sejam a saúde, a fortuna, os talentos, que Deus lhe deu para se santificar fazendo deles bom uso; dons também sobrenaturais: tantas luzes, inspirações, convites, tantos anos concedidos para reparação das faltas cometidas. Mas o desgraçado verá que no triste estado em que se acha, já não há tempo para remediar o mal.
Dirá gemendo com os seus companheiros no desespero: Transiit messis, finita est aestas, et nos salvati non sumus – “O tempo da ceifa é passado, o estio findou-se, e nós não fomos salvos”. A hora da salvação passou para mim; estou irreparavelmente perdido. Oh! Se todos estes trabalhos que passei para me perder fossem feitos para Deus, ter-me-ia tornado um grande santo! Agora, que me resta senão mágoas e remorsos que me atormentarão eternamente? Sim, mais cruciante do que o fogo e todos os outros tormentos do inferno será para o réprobo o ter de reconhecer: podia ser feliz para sempre; e serei eternamente desgraçado!
II. Meu irmão, se no passado nós também temos merecido estar com aqueles infelizes para chorarmos desesperados no inferno é preciso que reparemos o mal que fizemos; é preciso que mudemos, quanto antes, de vida. Não digas: quero fazê-lo mais tarde. O inferno está cheio de almas que falavam assim; mas veio a morte e agora não têm mais tempo para o fazer. Deves, portanto, resolver-te e dizer: quero salvar-me a todo custo. Perca eu tudo: bens, amigos e vida, contanto que não perca minha alma.
Sobretudo examinemo-nos muitas vezes para ver se porventura nos tenhamos afrouxado na devoção para com Maria Santíssima, e roguemos-lhe que aumente sempre em nós o seu amor. Qui operantur in me, non peccabunt; qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (1) – “Os que obram por mim não pecarão, e os que me esclarecerem, terão a vida eterna”. É o que afirma de si mesma a divina Mãe, é o que confirma a experiência contínua. É impossível que se perca um devoto de Maria, que a honra fielmente e a ela se recomenda.
Ah, meu Jesus, como pudestes suportar-me tanto? Tantas vezes Vos voltei às costas e nunca deixastes de me procurar! Tantas vezes Vos ofendi e sempre me haveis perdoado! Tornei a ofender-Vos e Vós também tornastes a perdoar-me! Por piedade, dai-me uma parte da dor que sofrestes no horto de Gethsemani por causa de meus pecados, que então Vos fizeram suar sangue. Arrependo-me, querido Redentor meu, arrependo-me de ter retribuído tão mal o vosso amor. Ó malditos gostos, detesto-vos e amaldiçôo-vos; vós me fizestes perder a graça de meu Senhor.
Meu amado Jesus, amo-Vos agora sobre todas as coisas; e por vosso amor renuncio a todas as minhas satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que Vos tornar a ofender. Por esse terno afeto com que me amastes sobre a cruz e sacrificastes por mim a vossa vida divina, peço-Vos que me deis luz e força para resistir às tentações e implorar o vosso auxílio quando for solicitado para o mal. – Ó Maria, minha esperança, vós que podeis tudo junto de Deus, impetrai-me a santa perseverança; obtende-me a graça de nunca me separar do seu santo amor. Obtende-me também uma terna devoção para convosco, ó minha santíssima Mãe.
Referências:
(1) Eclo 24, 30
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 80-82)
Voltar ao calendário de meditações diárias
Compartilhe esta meditação:
