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A nova concepção do ecumenismo após o Vaticano II

A nova concepção do ecumenismo após o Vaticano II

No Vaticano II, a Igreja adotou uma nova atitude, que corresponde a uma nova doutrina. A Igreja Católica não foi mais apresentada como a única sociedade religiosa que leva à salvação.

As outras confissões cristãs, e mesmo as religiões não cristãs, foram consideradas como outras expressões (sem dúvida, menos perfeitas; entretanto, válidas) da religião divina, de caminhos levando realmente a Deus e à salvação eterna.

Não é mais uma questão de conversão dos não-católicos à Igreja Católica; mas de diálogo e de pluralismo religioso.

Podeis dar um exemplo desta nova atitude?

O decreto sobre o ecumenismo emprega a palavra “Igrejas” (no plural) para designar as outras comunidades cristãs. Antes, evitava-se sempre de o fazer.

Quando se falava de “Igrejas”, entendiam-se as igrejas locais, como, por exemplo, a igreja (isto é, a diocese) de Lyon ou de Milão.

A palavra “Igreja” não era empregada para descrever os cismáticos orientais?

A palavra “Igreja” era, às vezes, empregada, em sentido lato, para designar as confissões cismáticas que conservam a transmissão apostólica e todos os Sacramentos [178]. Mas sustentava-se firmemente que só há uma única Igreja em sentido próprio, porque Jesus Cristo só tem uma única Esposa.

As dissidências heréticas recebiam os nomes de “confissões” ou “comunidades”, mas não se reconhecia o título de Igrejas. Hoje, o contrário se tornou corrente.

Qual é o fundamento teológico desta nova atitude?

O fundamento teológico desta nova atitude já foi evocado na pergunta nº29: é o “subsistit in” de Lumen gentium. [179]

Em vez de dizer que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, o texto de Vaticano II diz que a Igreja de Cristo subsiste na [subsistit in] Igreja Católica. [180]

Por que Vaticano II introduziu essa expressão “subsistit in”?

Com a expressão “subsistit in”, o Concílio Vaticano II faz uma distinção entre Igreja de Cristo e Igreja Católica (enquanto que, para a teologia tradicional, estes dois termos têm exatamente o mesmo significado: a Igreja de Cristo; isto é, a sociedade sobrenatural fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação dos homens, é a Igreja Católica).

O que significa precisamente, para Vaticano II, essa expressão “subsistit in”?

Vaticano II quer admitir que a Igreja de Cristo tem sua realização perfeita (“sua subsistência”) na Igreja Católica [181]; mas pretende que não seja idêntica à Igreja Católica: estender-se-ia para fora Dela, de maneira imperfeita, graças aos “elementos de Igreja” presentes nas outras confissões cristãs.

Essa interpretação do “subsistit in” é correta?

Essa interpretação foi oficialmente confirmada pela Congregação para a Doutrina da Fé, na Declaração Dominus Iesus, de 06 de agosto de 2000:

“Pela expressão “subsistit in”, o Concílio Vaticano II quis proclamar duas afirmações doutrinais: de um lado, que, apesar das divisões entre cristãos, a Igreja de Cristo continua a existir em plenitude somente na Igreja Católica; de outro lado, “que elementos numerosos de santificação e de verdade subsistem fora de suas estruturas” [182]; isto é, nas Igrejas e comunidades eclesiais que ainda não estão em plena comunhão com a Igreja Católica.”

O que se pode notar nesse texto?

Pode-se notar, de início, que esse texto designa as comunidades heréticas ou cismáticas como “comunidades eclesiais que não estão ainda em plena comunhão com a Igreja Católica.” O que implica que estariam, pelo menos, em comunhão parcial ou imperfeita.

Essa expressão “plena comunhão” é nova?

A distinção entre comunhão perfeita e imperfeita é uma inovação capital de Vaticano II. [183]

Qual é o ensinamento tradicional da Igreja sobre este assunto?

O ensinamento da Igreja é muito simples: para ser salvo, é preciso pertencer à Igreja, seja in re (em realidade, isto é, preenchendo as três clássicas condições: Batismo, Fé católica, submissão à hierarquia); seja in voto (por um desejo, explícito ou implícito). [184]

Por conseguinte, aqueles que não têm a Fé Católica ou que não estão submetidos à hierarquia, e que, além disso, não possuem nenhum desejo, nem mesmo implícito, de mudar de estado, não pertencem de nenhum modo à Igreja. Não podem assegurar sua salvação nestas disposições.

Qual é a inovação do Vaticano II?

Vaticano II tentou encontrar estados intermediários entre a filiação à Igreja e a não-filiação. Os cristãos não-católicos estariam em “comunhão imperfeita” com a Igreja (UR 3; LG 15), e todos os homens, mesmo não cristãos, estariam “ordenados ao Povo de Deus” (LG 16). Isso implica que poderiam se salvar sem ter o desejo (ao menos implícito) de mudar de estado e de aderir à Igreja.

Notas:

[178] Ver sobre este assunto Le Sel de La terre nº 40, p.85-87. (nota dos editores franceses).

[179] Ver supra p.73-74. Lembramos que o pai dessa expressão “subsistit in” é um protestante: o pastor Wilhelm Schmidt.

[180] Vaticano II, Constituição Lumen gentium (sobre a Igreja), 1, 8. A mesma expressão figura na declaração sobre liberdade religiosa Dignitatis humanae, § 1: “essa única verdadeira religião, cremos que subsiste na Igreja Católica e Apostólica”.

[181] A nota 56 da declaração Dominus Iesus (06.08.2000) precisa que a Igreja de Cristo só tem essa realização concreta (“sua subsistência”) na Igreja Católica (ver sobre este assunto Sel de la terre nº35, p.1) (nota dos editores franceses).

[182] Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium § 8; ver João Paulo II, encíclica Ut unum sint, § 13. Ver também: Vaticano II, Lumen gentium, §15 e o decreto sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, §3.

[183] Essa inovação figura no texto Unitatis redintegratio [UR] 3; ver também Lumen gentium [LG] 14, que fala de “plena incorporação” (Sobre esta questão, ver Sel de La terre nº49, p.6-14 – nota dos editores franceses).

[184] Aqueles que não estão incorporados à Igreja in re (em realidade) podem, em certas circunstâncias, sê-lo in voto (pelo desejo: é o que se chama, às vezes, pertencer à alma da Igreja). Esse desejo pode ser explícito (por exemplo, um catecúmeno se preparando para o Batismo) ou implícito (por exemplo, uma pessoa educada na heresia; mas que só adere a essa heresia por ignorância, de modo não culpável: não tem os meios de discernir que a Igreja Católica é a única verdadeira religião; mas está fundamentalmente disposta a aceitá-la).

Catecismo Católico da Crise na Igreja. Pe. Mathias Gaudron.

Notas da imagem:

“O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são expressão de uma sábia vontade divina, com que Deus criou os seres humanos” – lê-se na declaração conjunta assinada pelo Papa Francisco e pelo imã de Al Azhar em 4 de fevereiro de 2019.

A declaração conjunta foi assinada durante a viagem de dois dias do Papa Francisco aos Emirados Árabes em conjunto com o imã de Al Azhar. (Vatican Media)

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