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A Fraternidade Sacerdotal São Pio X tem uma noção falsa da Tradição?

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X tem uma noção falsa da Tradição?

Reprova-se, hoje, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X por ter uma noção por demais estática da Tradição.

A Roma Conciliar lhe opõe a “Tradição Viva” [422] – o adjetivo “viva” querendo sugerir que a Tradição pode evoluir como qualquer ser animado.

Mas está justamente aí o erro modernista do historicismo: a Verdade doutrinal nunca poderia ser atingida de modo definitivo, mas seria percebida e expressa de modo diferente no curso dos diferentes séculos.

Esse erro foi condenado pelos Papas Pio XII e São Pio X.

Esse erro do historicismo está, verdadeiramente, presente em Roma hoje?

Monsenhor Lefebvre, com frequência, contava que, quando falava com o Cardeal Ratzinger ou com outras personalidades romanas, e, quando invocava tal condenação trazida por Pio IX, ou tal definição dogmática do Concílio de Trento, escutava seu interlocutor responder-lhe:

“Mas, Monsenhor, não vivemos mais no tempo de Pio IX; não estamos mais na época do Concílio de Trento...”.

Não é normal que as tradições evoluam de acordo com o tempo?

É muito necessário distinguir a Tradição (com um T maiúsculo) e as tradições.

A primeira é imutável, enquanto que as segundas podem conhecer uma certa mudança.

O que é a Tradição?

A Tradição (com um T maiúsculo) é a Tradição apostólica; isto é, o Depósito da Fé, que foi confiado, de uma vez por todas, aos Apóstolos e que o Magistério deve transmitir e proteger até ao fim do mundo. [423]

A Tradição é absolutamente imutável?

O Depósito Revelado por Deus e transmitido pela Tradição é absolutamente imutável, já que a Revelação se encerrou com a morte do último Apóstolo. [424]

Mas esse Depósito imutável é expresso de modo cada vez mais preciso pelo Magistério, que o inventoria e que o classifica, ao mesmo tempo em que o transmite e em que o defende.

Há então uma evolução do ensinamento da Igreja? [425]

Preferivelmente a evolução (palavra muito ambígua),deve-se falar de desenvolvimento. E é necessário precisar que esse desenvolvimento é homogêneo; isto é, sem mutação: é somente o desdobramento do que estava incluído desde o princípio e que um tipo de compressão impedia de ser plenamente visível [426].

Isso não permite dizer que a Tradição seja viva?

A Tradição é viva no sentido de que o Depósito Revelado deixado pelos Apóstolos não é transmitido somente de modo morto, em escritos; mas também por pessoas vivas que têm autoridade para defendê-lo, dar-lhe o devido valor e fazer que seja vivido pela Fé (é a função do Magistério).

Mas, permanece o fato de que esse Depósito é, este mesmo, imutável.

A Verdade não muda, e nada do que foi uma vez definido pelo Magistério pode, em seguida, ser modificado.

A expressão “Tradição viva”, com frequência compreendida como uma Tradição cambiante e evolutiva, é, pois, hoje, particularmente perigosa.

Quais são, na Igreja, as tradições que existem, além da Tradição apostólica?

Todas as práticas de piedade, regras de institutos de vida consagrada, métodos de apostolado, leis e costumes litúrgicos ou jurídicos que são transmitidos na Igreja sem terem sido diretamente instituídos por Deus, no tempo dos Apóstolos, são tradições eclesiásticas, distintas da Tradição no sentido estrito.

Todas essas tradições eclesiásticas podem, pois, mudar?

As tradições eclesiásticas não são tão imutáveis quanto a Tradição revelada, e, de fato, lentamente evoluíram no curso do tempo. Mas aquelas são a herança dos Santos e a expressão da sabedoria da Igreja (Ela própria guiada pelo Espírito Santo).

Seria, pois, ímpio e muito imprudente trazer brutais mudanças às mesmas sem motivo proporcional.

Não há, todavia, nos “tradicionalistas” um apego excessivo e rígido demais à tradições eclesiásticas, que, apesar de tudo, são humanas?

Um tal “tradicionalismo” rigorista e exagerado que pretendesse engessar todas as formas exteriores e que recusasse qualquer adaptação às necessidades contemporâneas pode até existir (encontra-se em alguns cismáticos orientais ditos “ortodoxos”).

Mas, não foi a atitude nem de São Pio X, nem de Monsenhor Lefebvre, que, ao contrário, souberam unir, intimamente, a fidelidade ao passado da Igreja e a adaptação às necessidades de sua época.

Ademais, o combate anti-modernista, que um e outro conduziram (e que conduzem ainda hoje os que levam o nome de “tradicionalistas”), não repousava essencialmente sobre tradições humanas; mas sim sobre a Tradição revelada, objeto da virtude de Fé.

A resistência tradicionalista não é, antes de tudo, uma questão de latim, de batina ou de rubricas litúrgicas; mas sim uma questão de Fé.

Como São Pio X conciliou fidelidade ao passado e adaptação às necessidades presentes?

São Pio X, que condenou tão severamente o modernismo, foi, ao mesmo tempo, um grande Papa reformador: reformou o Breviário e a música da Igreja; foi o primeiro a preparar um Código de Direito Canônico claro e completo, e, com seus dois decretos sobre a Comunhão, eliminou as últimas influências do jansenismo.

E aqui só se trata das suas principais reformas. Desde o Concílio de Trento, nenhum pontificado havia, sem dúvida, promovido tantas reformas quanto o de São Pio X!!!

Porém, foram reformas inspiradas por um zelo verdadeiramente sobrenatural, sem nenhum desprezo pelo passado, e visando, apenas, a criar melhores condições para a ação da Igreja no mundo moderno, em vista da salvação das almas.

Pode-se, sobre esse tópico, comparar Monsenhor Lefebvre a São Pio X?

Monsenhor Lefebvre agiu exatamente como São Pio X. Tanto quanto se apegava à Tradição com T maiúsculo (que nos transmite o Depósito da Fé), sabia ser empreendedor e inovador nos métodos de apostolado. Sua biografia fornece múltiplos exemplos disso. [427]

De onde vem essa expressão “Tradição viva” hoje utilizada contra os tradicionalistas?

A expressão “Tradição viva” vem de um texto de Vaticano II (Dei Verbum nº12) e evoca uma tradição evolutiva. [428] Na perspectiva modernista, o papel do Magistério não é o de conservar o Depósito da Revelação; mas o de assegurar a “comunhão” eclesial (tanto no espaço, quanto no tempo).

A fidelidade à Tradição não é mais, pois, primeiramente a fidelidade a um Depósito transmitido desde os Apóstolos; mas muito mais a docilidade para com o que o Papa, garante da unidade, diz hoje.

Encontra-se essa nova noção de “Tradição viva” no ensinamento de Bento XVI?

A noção de “Tradição viva” está onipresente no ensinamento de Bento XVI. Numa alocução de 26 de abril de 2006, por exemplo, apresenta a Tradição como “a atualização permanente, na força do Espírito, da comunhão [eclesial] original” e explica:

“A Tradição é a comunhão dos fiéis em torno dos pastores legítimos no curso da história; uma comunhão que o Espírito Santo alimenta, assegurando a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade original dos discípulos, e a experiência atual de Cristo na Sua Igreja”. [429]

O que se destaca nessa definição de Tradição?

Sob pretexto de ressaltar o caráter vivo da Tradição (“A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre vivas” disse ainda o Papa), deixa-se de lado o conteúdo essencial dessa Tradição: a Verdade Revelada, que é imutável.

O que é necessário responder contra essa nova noção da “Tradição viva”?

Basta responder com São Paulo:

“Se eu mesmo ou um anjo vindo do céu vos anunciasse um Evangelho diferente do que nós vos pregamos, seja anátema!” (Gl 1,8).

Notas:

[422] Assim, por exemplo, João Paulo II, em seu Motu Proprio Ecclesia Dei, de 02 de julho de 1988, (excomungando Monsenhor Lefebvre), denuncia, “na raiz” da resistência tradicionalista, “uma noção incompleta e contraditória da Tradição”. Assinala que essa noção seria incompleta “porque não leva suficientemente em conta o caráter vivo da Tradição, que, como o ensinou claramente o Concílio Vaticano II, manifesta-se na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (DS 4822).” Essa noção seria contraditória no que se oporia ao Magistério Universal da Igreja. (sobre esta última observação, recapitular as perguntas 19 e 31 deste catecismo).

[423] Ver a pergunta nº 8 deste catecismo.

[424] Consulta a 21ª proposição condenada pelo Papa São Pio X no Decreto Lamentabili (DS 3421).

[425] Para aprofundar o tema, sugerimos a leitura de duas obras-primas sobre o assunto: a primeira do Cardeal Newman, Essay on the development of Christian Doctrine. A segunda, do Cardeal Franzelin, o tratado De Traditione Divina. Este último existe em francês: https://laportelatine.org/accueil/communic/2008/franzelin/franzelin.php [nota da tradução brasileira]

[426] Ver a pergunta nº 12 deste catecismo, assim como o estudo de Monsenhor Tissier de Mallerais: “A Tradição viva e combativa” (Le Sel de La Terre nº 30, p.16-32).

[427] Ver Marcel Lefebvre, une vie, por Monsenhor Tissier de Mallerais, Étampes, Clovis, 2002, notadamente, p.199-202.

[428] Sobre essa noção de “Tradição viva” em Dei Verbum, ver Le Sel de La terre nº55, p.29-33. (nota dos editores franceses).

[429] ORLF nº18 (02.05.2006), p.12.

Catecismo Católico da Crise na Igreja. Pe. Mathias Gaudron.

Notas da imagem:

Padre rezando a missa obedecendo as rubricas. Não pára nem mesmo por causa dos bombardeios que caem no campo. 

As rubricas bem determinadas manifestam que a liturgia é algo voltado para Deus e não para o homem. Se pudéssemos determinar como Deus deve ser cultuado, no fundo seríamos nós o centro da liturgia, pois escolheríamos o modo de cultuar Deus que mais nos agrada.

A liturgia se tornaria algo para nos agradar e não para agradar a Deus. Assim, as rubricas bem precisas nos mostram que é Deus que determina como Ele deve ser cultuado e nos mostra que o centro da liturgia é Deus, que a finalidade da liturgia é agradar a Deus e não a nós mesmos.

Se queremos chegar ao céu, devemos agradar a Deus e não a nós mesmos. O rito bem determinado, com rubricas precisas, nos dá essa grande lição. Achar que estamos agradando a Deus, quando agradamos a nós mesmos, é um dos grandes erros dos nossos tempos.

As rubricas bem determinadas são também uma mortificação, uma negação de si mesmo, pois nos impedem de controlar a liturgia e nos ensinam a conformidade com a vontade de Deus.

Quando controlamos algo tiramos disso uma satisfação. Controlar a liturgia ou determiná-la conforme a nossa preferência nos daria uma satisfação desordenada, pois estaríamos submetendo um bem espiritual aos nossos sentimentos.

As rubricas bem determinadas impedem que um grupo imponha a sua espiritualidade ou falta de espiritualidade aos outros fiéis. As rubricas impedem as Missas carismáticas, as Missas das crianças, a Missa disso e daquilo. As rubricas deixam claro também que a liturgia não deve ser basear na personalidade do sacerdote.

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