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A crise em números

A crise em números

Em 1958, 35% dos franceses assistiam à missa dominical: hoje, são menos de 5%, e freqüentemente são idosos. Em 1950, mais de 90% das crianças nascidas na França eram batizadas; hoje, menos de 50% o são.

Não há, porém, um aumento, na França, de Batismos de adultos?

Alguns milhares de Batismos de adultos não seriam capazes de compensar uma baixa de centenas de milhares de Batismos de crianças (ainda mais porque a perseverança dos novos batizados deixa normalmente muito a desejar).

O caso da França é realmente característico?

Encontra-se o mesmo desinteresse pela Igreja pela Europa. Entre 1970 e 1993, 1,9 milhões de alemães oficialmente abandonaram a Igreja Católica. O ódio ou a cólera não são os motivos mais frequentes, mas tão simplesmente a indiferença.

A Igreja não quer dizer mais nada aos homens, não tem mais importância em suas vidas; abandona-se a Igreja, para economizar o imposto eclesiástico. Neste ritmo, a religião católica vai virar a religião de uma pequena minoria.

A Alemanha, segundo um dito de Karl Rahner, corre o perigo de virar uma terra pagã de passado cristão com alguns vestígios de Cristianismo.

Não se pode dizer que esta terrível crise é apenas local, atingindo a Europa Ocidental e a América do Norte, mas poupando a América Latina, a África e a Ásia, onde, ao contrário, o Catolicismo parece particularmente dinâmico?

Algumas cifras poderiam fazer crer que a crise é só local. O Anuário Pontifício sublinha que o aumento de ordenações e de seminaristas nos países de Terceiro Mundo compensa grandemente a baixa constatada nos países ocidentais.

Na realidade, a crise é universal, mesmo se não se manifeste por toda parte do mesmo modo (os países pobres, onde o sacerdócio representa ascensão social, recrutam muito facilmente vocações; mas de qual qualidade?)

A América Latina, por exemplo, que passa por bastião do Catolicismo, está atualmente em vias de passar ao protestantismo, mais rapidamente do que a Alemanha do século XVI.

Temos estatísticas para ilustrar essa protestantização da América Latina?

Às vésperas de Vaticano II, 94% dos brasileiros eram católicos. Não eram mais que 89% em 1980; 83% em 1991; 74% em 2000 (e menos de 60% nas grandes cidades: São Paulo e Rio). Os protestantes, que representavam 3% da população em 1900, são atualmente 18% e seu número não pára de crescer! Cinco igrejas pentecostais são criadas em média no Rio de Janeiro a cada semana.

O padre Franc Rodé, Secretário do Conselho Pontifical para o Diálogo com os não-crentes, estimava que em 1993 a Igreja perdia 600.000 fiéis latino-americanos a cada ano. Outras fontes fornecem estimativas mais graves ainda: 8.000 católicos passariam a cada dia para as seitas [5].

Considera-se que, no Chile, desde 1960, 20% da população entrou para seitas protestantes; e, na Guatemala, cerca de 30%!

Esta crise é uma crise de Fé?

A Fé cristã parece em vias de desaparecer da Europa. As verdades fundamentais, como a fé em Deus, a Divindade de Jesus Cristo, o Céu, o Purgatório e o Inferno são cada vez menos aceitas.

O mais inquietante é que esses artigos de Fé são negados mesmo por pessoas que se dizem católicas e freqüentam regularmente a igreja.

Temos números mais precisos para ilustrar esta crise de Fé?

Sem ser perfeitamente confiáveis, as sondagens são representativas das grandes tendências da sociedade. Segundo uma sondagem recente [6], 58% dos franceses somente crêem na existência certa ou provável de Deus (contra 61% em 1994); 65% (e 80% entre os jovens de 18 a 24 anos) dizem não crer de jeito nenhum num Deus em três Pessoas; e 67% não crêem de nenhum modo no Inferno (contra 48% em 1994); 12% apenas dos católicos dizem ainda crer completamente no Inferno (16% crêem um pouquinho; 72% não crêem nele).

Mesmo entre os católicos praticantes regulares, os números são catastróficos: 23% apenas crêem firmemente no Inferno, enquanto 54% não crêem; ainda por cima, 34% desses praticantes regulares crêem completamente que Maomé é um profeta, enquanto que somente 28% não o crêem (35% crêem um pouquinho; os outros não sabem).

Em 2006, apenas 7% dos católicos franceses achavam que sua religião era a única verdadeira [7]. “Mede-se a amplitude da mudança se sabemos que a metade dos católicos pensavam em 1952 que existia uma só verdadeira religião” sublinha o sociólogo Yves Lambert [8]. Assim mesmo, 81,3% dos católicos do Valais acham que todas as religiões levam à salvação eterna [9].

Que lição tirar das estatísticas ?

Esses números manifestam que a crise é primeiro uma crise de Fé. Não somente o número daqueles que pensam pertencer à Igreja diminui, mas até a maioria daqueles que são oficialmente seus membros não possui mais a Fé Católica!!!

Aquele que nega uma Verdade de Fé, perdeu a Fé, pois esta é um todo e deve ser recebida como um todo. Se, então, 72% se recusam a crer no Inferno, não há mesmo nem um católico para cada três que tenha a Fé.

Esta crise é também uma crise moral?

A crise dos costumes acompanha a crise de Fé. Enquanto São Paulo lembra aos cristãos que devem pela sua maneira de viver brilhar em meio a uma geração corrupta assim como as estrelas brilham no Universo (Fl 2,15), pode-se dizer que o gênero de vida dos cristãos atuais não difere em nada daquele dos filhos deste mundo, daquele dos incrédulos. Sua Fé fraca e esvaziada em sua substância não tem mais força para influenciar sua vida, ainda menos para transformá-la.

Notas:

[5] Présent, 22 mai 1993.

[6] Sondage CSA – La Vie – Le Monde, realizada em março de 2003

[7] Sondagem CSA – Le Monde dês religions, octobre 2006.

[8] Reportado por l’INSEE, Donnés sociales – La société française (Ed. 2002-2003), estudo de Yves Lambert (do CNRS) sobre “ A Religião na França, dos anos sessenta aos nosso dias”. O autor nota que a grande ruptura remonta aos anos 1965, com um recuo tanto das atitudes quanto das práticas relacionadas à religião. A filiação religiosa resiste, porém, num primeiro momento e só conhece uma primeira queda nos anos 1975-76.

[9] Sondagem realizada pelo Instituto Link, setembro de 1990.

Catecismo Católico da Crise na Igreja. Pe. Mathias Gaudron.

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