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Inferno

Testemunhas da existência do inferno

Não há verdade tão inculcada na Sagrada Escritura como a da existência do inferno. Escritores inspirados falam dele continuamente, para que os homens, horrorizados com as penas que aí se sofrem abandonem o vício e se deem à prática da virtude.

Os protestantes, que de nossa santa religião negaram quase todas as verdades mais difíceis de crer e praticar não souberam desfazer-se do dogma do inferno, pelo fato de ser frequentemente recordado nas Sagradas Escrituras. Por este motivo, uma senhora católica, importunada por dois ministros protestantes ao passar pela reforma, saiu-se com esta sensata resposta:

“Senhores, fizestes na verdade uma bela reforma, suprimistes o jejum, a confissão, o purgatório; infelizmente, porém, conservastes o inferno. Tirai também este e eu serei dos vossos.”

Em sua infinita misericórdia, Deus, depois de haver revelado o dogma do inferno, tem permitido, de tempos em tempos, que alguma alma venha da eternidade para confirmar-nos a existência daquele lugar de penas. Tais aparições são mais frequentes do que comumente se crê; e quando são atestadas por pessoas idôneas e fidedignas, tornam-se fatos inegáveis, que se admitem como todos os outros fatos da história. Apresso-me, porém, a declarar que não entendo trazer esses fatos como argumento principal e básico com que se demonstre e se estabeleça o dogma do inferno, porque este nos é demonstrado pela palavra infalível de Deus; narro tais aparições somente para confirmar e elucidar essa verdade, e como argumento de salutar meditação.

Monsenhor de Ségur, no seu áureo opúsculo sobre o inferno narra três fatos, cada qual mais autêntico, acontecidos não faz muito tempo.

Primeiro fato

O primeiro, diz ele, sucedeu quase em minha família, pouco antes da terrível campanha de 1812, na Rússia. Meu avô materno, o Conde Rostopkine, governador militar de Moscou, era intimamente relacionado com o general Conde Orloff, tão valoroso quanto ímpio.

Um dia, após a ceia, o conde Orloff e um seu amigo, o general V…, volteriano como ele, puseram-se a ridicularizar a religião e sobretudo o inferno:

– Mas…, disse Orloff, e se houvesse alguma coisa além do túmulo?
– Neste caso…, diz o general V…, o primeiro que morrer virá avisar o outro; de acordo?
– Pois não, responde Orloff.

E ambos prometeram seriamente não faltar à palavra.

Algumas semanas após, desencadeou-se um daquelas guerras que Napoleão sabia suscitar; o exército russo foi chamado às armas, e o general V… recebeu ordem de partir imediatamente para um posto de comando.

Duas ou três semanas depois da partida de Moscou, quando meu avô se levantara, bem cedo, viu abrir-se bruscamente a porto do quarto e entrar o conde Orloff, com roupa de dormir, de chinelos, cabelo em desalinho, olhos esbugalhados, pálido como cera.

– Oh! Orloff vós aqui a esta hora? Neste traje? Que aconteceu?
– Meu caro, responde Orloff, eu perdi a cabeça; vi o general V…
– Oh! Ele já voltou?
– Não, continua Orloff, atirando-se a um sofá, não, não voltou, e é isto que me espanta.

Meu avô nada compreendia e procurava acalmá-lo.

– Contai-me, então, lhe disse, o que aconteceu e o que significa tudo isto.

Fazendo grande esforço para se acalmar, o conde Orloff contou o seguinte:

– Meu caro Rostopckine, não faz muito, o general V… e eu, juramos que o primeiro que morresse, viria avisar o outro se há de fato alguma coisa além do túmulo. Ora, pela madrugada, enquanto estava tranqüilo na cama, acordado, sem pensar no amigo nem no juramento, abre-se de repente o cortinado do meu leito e vejo, a dois passos de mim, o general V… de pé, desfigurado, com a mão direita no peito, e me fala: “Existe um inferno, e eu lá estou…” e desapareceu. Na mesma hora corri até cá; eu perdi a cabeça! Que coisa estranha! não sei o que pensar!

Meu avô tranquilizou-o como pôde: falou-lhe de alucinação, fantasia… que ele talvez estivesse dormindo… que às vezes dão-se casos extraordinários, inexplicáveis… E procurava persuadi-lo com outros meios termos, que apesar de nada valerem, servem para consolar os céticos. Mandou preparar a carruagem e acompanhou o conde à sua casa.

Dez ou doze dias depois deste estranho acontecimento, um carteiro do exército comunicava ao meu avô, entre outras coisas, a morte do general V…

Naquela madrugada em que o conde Orloff o tinha visto e ouvido, o infeliz general, saindo a estudar a posição do inimigo, foi varado por uma bala e caiu morto.

“Existe um inferno, e eu lá estou…”

Eis as palavras de um que veio do outro mundo!

Segundo fato

O segundo fato é referido pelo mesmo autor, que o tem por indubitável, como o precedente, pois o ouviu da boca de um respeitabilíssimo eclesiástico, superior de importante comunidade, o qual por sua vez, soube os pormenores mediante um parente da senhora, com a qual se deu tal fato. Naquele tempo, isto é, por ocasião do Natal de 1859, ela ainda vivia e contava pouco mais de quarenta anos.

Achava-se essa dama em Londres no inverno de 1847 e 1848; enviuvara aos 29 anos, era muito rica e muito amiga dos divertimentos mundanos. Entre as pessoas elegantes que frequentavam a sua casa, notava-se especialmente um moço, cujas contínuas visitas a comprometiam não pouco e cuja vida estava longe de ser edificante.

Uma noite, a senhora lia não sei que romance para conciliar o sono. Ouvindo bater o relógio, apagou a vela e dispunha-se para deitar, quando percebeu, com grande assombro, que uma luz estranha e pálida vinha da porta do salão contíguo e espalhava-se a pouco e pouco no quarto, aumentando sempre. Não sabendo o que era, do pasmo passou ao medo; eis senão quando, viu abrir-se lentamente a porta do salão e entrar no quarto o jovem desregrado, o qual, antes que ela pudesse pronunciar palavra, aproximou-se, tomando-a pelo braço esquerdo, apertando-lhe fortemente o pulso, e com aceno desesperado, lhe falou em inglês:

“Existe o inferno!”

Foi tão grande o susto que a senhora perdeu os sentidos. Voltando a si, tocou nervosamente a campainha para chamar a criada, que a tendeu; entrando no quarto, esta sentiu logo um cheiro de queimado e chegando-se à dama, que com dificuldade articulava umas palavras pôde ver que tinha ao redor do pulso uma queimadura tão profunda que a carne desaparecera e ficava à mostra o osso. Observou além disso, que da porta do salão até o leito e do leito à porta do salão estava impressa a pegada de um homem, que tinha queimado o pano de parte a parte. Por ordem da ama, abriu a porta do salão, e notou que lá terminavam as pegadas no tapete.

No dia seguinte, a infeliz senhora soube com aquele medo que bem se compreende, que alta noite, o tal moço se embriagara com excesso, e transportado para casa, veio a morrer pouco depois.

Ignoro, acrescenta o superior, se esta terrível lição tenha convertido a infeliz dama; o que sei é que ela ainda vive e para esconder aos olhares curiosos o sinal daquela sinistra queimadura, leva no pulso, à guisa de bracelete, um largo enfeite de ouro, que não deixa nem de dia nem de noite. Repito que os particulares eu os tive da boca de um parente próximo seu, católico sincero, a cuja palavra presto fé. Os parentes não falam do ocorrido e é por isso que tenho o cuidado de ocultar o nome da família.

Apesar de esconder os envolvidos desta aparição, não me parece, acrescenta Monsenhor de Ségur, que se possa pôr em dúvida a formidável autenticidade.

Terceiro fato

O terceiro fato aconteceu na Itália. Em 1873, em Roma, alguns dias antes da Assunção, uma moça, bastante má, machucou uma das mãos. Levaram-na para o Hospital da Consolação. Ou porque o sangue estivesse muito deteriorado ou porque sobreviesse grave complicação, a infeliz morreu naquela noite.

No mesmo instante uma de suas companheiras, que não sabia o que acontecera no hospital, pôs-se a gritar desesperadamente, a tal ponto que acordou toda a vizinhança e provocou a intervenção da polícia. A companheira que morrera no hospital apareceu envolvida em chamas e lhe disse:

“Estou condenada, e se não queres condenar-te também, sai deste lugar infame e volta a Deus.”

Nada consegui acalmar a agitação da jovem, que bem cedo abandonou aquela casa, deixando a todos atônitos, especialmente depois de divulgada a notícia da morte da companheira, no hospital.

Aconteceu que, logo depois, a proprietária da casa, uma prostituta exaltada, caiu doente, mandou logo chamar um padre, dizendo que queria receber os sacramentos. A Autoridade Eclesiástica delegou para esse fim um digno sacerdote, Monsenhor Piroli, pároco de São Salvador em Laura. Munido de especiais instruções, ele se apresentou e exigiu, antes de tudo, que a doente fizesse, perante testemunhas, plena retratação de suas blasfêmias e insultos contra o Sumo Pontífice e declarasse que se afastaria as ocasiões de pecado. Sem a menor hesitação, a infeliz promete e então se confessa e recebe o Sagrado Viático com grandes sentimentos de penitência e humildade.

Pressentindo o seu fim, a pobre mulher, com lágrimas nos olhos suplicou ao padre que não a abandonasse, amedrontada como estava por aquela aparição. Assim, teve a grande graça de ser assistida nos últimos momentos pelo ministro de Deus.

Toda a Roma conheceu logo os particulares desta tragédia.

Como sempre, os ímpios e os libertinos fizeram dela objeto de chacota, abstendo-se, à aposta, de obter oportunas informações; mas, de sua parte, os bons aproveitaram para se tornarem melhores e mais exatos no cumprimento de seus deveres.

Horrendos suplícios do inferno

Nenhuma língua humana é capaz de exprimir os tormentos atrozes daquele lugar de desespero. Como descrever aquele fogo medonho aceso pela ira de Deus? os remorsos cruéis que dilaceram o mísero preceito? a eternidade sem fim, com o terrível sempre e o terrível nunca?

Diz Santo Agostinho que o fogo da terra comparado com o do inferno, parece um fogo pintado; e São Vicente Ferrer diz que em confronto com aquele, o nosso é frio.

Gastemos embora páginas e livros inteiros falando do inferno, acumulemos males sobre males, sofrimentos sobre sofrimentos, desgraças sobre desgraças, chamemos em nosso auxílio as fantasias fecundas dos poetas, para idear penas atrozes, peçamos aos tiranos da História as torturas que inventaram para seviciar as suas vítimas e, apesar de tudo isso, chegaremos à conclusão de que infinitamente maiores são os suplícios do inferno.

Santa Tereza foi um dia arrebatada em êxtase e levada ao inferno para ver o seu lugar, caso não se emendasse de certo defeito.

Ela mesma conta em sua autobiografia:

“Estando um dia em oração, fui transportada, sem saber como, em corpo e alma, ao inferno. Compreendi que Deus queria mostrar-me o lugar que ocuparia, se não mudasse de vida. Não tenho palavras que possam dar uma pequena ideia desse tormento incompreensível. Sentia em minha alma um fogo que me devorava e o corpo sofria dores insuportáveis. Durante minha vida passei por duros sofrimentos, mas, nem se comparavam com os que tive naquela ocasião; e ainda esses subiam de ponto, ao pensar que seriam eternos e sem o menor alívio. Mas, apesar de as torturas do corpo serem atrozes, não tinham comparação com as agonias da alma. Ao mesmo tempo, sentia-me queimar e partir em pedaços, sofria todas as angústias da morte e os horrores do desespero.

Num raio de esperança e de consolação naquela moradia, aí se respira um odor pestilencial, que sufoca; nem um raio de luz, mas tudo são trevas da mais densa escuridão; contudo, oh! mistério, mesmo naquele escuro se distingue o que de mais penoso há para a vista.

Em suma, tudo o que ouvi dizer ou li sobre as penas do inferno é insignificante em confronto com a realidade; entre aquelas penas e estas há a mesma diferença entre uma pessoa e o seu retrato. Ai! o fogo deste mundo por mais ardente que seja, é como o fogo pintado, comparado com aquele que atormenta os réprobos no inferno.

Há dez anos que tive esta visão, mas estou ainda agora tão espantada, que, enquanto escrevo, o medo gela-me o sangue nas veias. Em meio às provocações e dores que tenho, trago à mente esta visão e de aí tiro força para tudo suportar.”

Vicente de Beauvais, no livro 25 de sua História, refere o seguinte fato, acontecido pleno ano 1000:

“Dois libertinos fizeram uma combinação: o primeiro a morrer viria à terra participar ao companheiro em que estado se achava. Morreu um deles, e Deus permitiu aparecesse ao amigo: era horrendo, parecia sofrer duramente e suava em bicas. Enxugou a fronte com a mão e deixou cair uma gota de suor no braço do companheiro, dizendo-lhe:

ʽEis qual é o suor do inferno; dele terás um vestígio até à morte.ʼ

E assim foi, pois aquele suor infernal queimou-lhe o braço, penetrando na carne com dores inauditas.”

Bom para ele que soube aproveitar-se de tão terrível lição e retirou-se para o convento.

Retirado do livro “O inferno existe”. Padre André Beltrami.

Artigo de quarta-feira, 13 de setembro de 2017.

Tags: dogma inferno santos

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